As Espiãs do Planeta
- Manuela Torres

- 28 de nov. de 2018
- 11 min de leitura
O texto a seguir é para pessoas malucas que, assim como eu, não conseguem evitar que o pensamento escape da normalidade e comece a duvidar de absolutamente tudo ao redor. Pegue um copo de água ou uma xícara de café, apoie os pés sobre a mesa e embarque comigo nessa lombra que é refletir sobre a vida, apenas se for do seu interesse, é claro.

Eu, ser humana do sexo feminino, contextualizada no vigésimo primeiro século depois de Cristo da história da humanidade, nascida no ocidente, na América do Sul, eu sou o sistema.
Eu, quanto criança crescida ouvindo boas influências perante o julgamento dos meus pais, relacionando-me com diversas culturas, tendo boa alimentação, acesso à leitura e escrita, detentora de proteção aquisitiva privilegiada em relação à média de meu contexto, eu sou a pessoa que deseja acabar com o sistema.
O sistema, tal como é, positivamente me possibilitou os olhos, ouvidos e sentidos necessários para que eu o percebesse negativamente, ou seja, tal como é. Sou grata ao sistema por isso e é essa gratidão que faz com que todos que já se atreveram ir contra o sistema falhem miseravelmente neste objetivo. Como o dragão que guarda a torre do castelo, essa gratidão é a fagulha inocente que queima e destrói por completo qualquer intenção que envolva acabar com o sistema. No entanto, não há porque ser pessimista, o erro é etimológico, sempre foi.
A palavra não é “acabar” ou muito menos “destruir”, pois tais definições estão fadadas ao fracasso quando se trata do sistema, por uma única razão: quem as proclama é o próprio sistema. Enquanto integrante da sociedade mundial, eu sou a sociedade mundial e isso é uma condição, um fato, uma afirmação. Usei este termo, “sociedade mundial”, pois é estritamente parecida com o termo em questão, “sistema”. Lembrando que tudo é etimologia. A frase correta então seria “enquanto integrante do sistema, eu sou o sistema”. É por isso que Marx, Sartre, Simone de Beauvoir ou mesmo Aristóteles, eles não acabaram com o sistema, tão pouco chegaram perto de o fazê-lo e sabe-se lá se esse era o objetivo deles afinal, pois não importa, o que interessa é que tudo o que fizeram foi estritamente modificar, alterar, adicionar e, acima das demais citadas: transformar.
Esqueçamos Aristóteles e usemos apenas os exemplos pós capitalismo. É difícil precisar uma data, caso se leve em conta as relações econômicas ao longo da história do mundo, como também é difícil subjetivar a noção de sistema. Hoje o planeta tem o capitalismo, mas na época de Aristóteles também havia algo que pudesse se chamado de “um sistema”. Logo, para não confundir os abacaxis, trataremos do capitalismo, pós Revolução Industrial e pós Karl Marx.
O capitalismo é a causa de tantos manifestos, tantos clamores por revolução, nos blogs esquecidos, nos muros da cidade, nos cartazes das universidades. O capitalismo é o sistema que vigora e, para fixar a informação, eu repito: todos nós somos o capitalismo.

Eu sei que é difícil para uns aceitar essa realidade e trata-la como teoria, mas posso prova-la que pode perfeitamente ser os dois. É real para mim que acredito no que escrevo e é teoria para você que lê e detém outras convicções. Então o que preciso fazer é fazê-lo (a) acreditar em mim. Sendo assim continuemos este texto.
Até agora falei que não podemos acabar com o sistema pois nós somos o próprio, seria como acabar a nós mesmo. E também quis dizer com isso que o que podemos fazer é altera-lo, transformá-lo, moldá-lo a partir de nossos ideais, até que a coisa fique tão distinta do inicial que pareça ser algo novo. A única forma de fazer isso é nos tornando escolas, tal como Marx fez, Nietzsche, Engels, Che e tantos outros. Intencional ou não, essas pessoas são escolas, e digo isso veja bem, mais uma vez, tendo atenção a etimologia. O raciocínio é que “escola” é uma instituição que ensina, e é exatamente isso que essas pessoas fizeram através de suas obras e ações. Ensinar a uma porcentagem da sociedade que é possível pensar e agir de uma maneira diferente da qual fomos induzidos desde que nascemos; perceber o mundo por um ângulo menos padrão; raciocinar alternativamente. Se a sociedade, que é o sistema, começar a pensar e agir de outra maneira, consequentemente o sistema mudará e os novos indivíduos que estão por vir (digo os novos minissistemas que nascerão), já estarão integrados neste novo contexto. Isso significa uma mudança estrutural que necessita de um certo tempo.
Porém, o fato de o capitalismo vigorar a todo vapor e, com as tecnologias, as mudanças visíveis na sociedade serem, sobretudo, no caráter de suas relações, significa que há um empecilho gigantesco mesmo em apenas “transformar” o sistema, porque, é lógico, nem tudo é um mar de rosas.
Os abacaxis estão mais embananados de que as próprias bananas, então, para que você também não fique tão confuso assim eu usarei analogias para exemplificar a questão. É como se cada um de nós fosse um algoritmo e juntos compuséssemos um grande e poderoso software. (Não se ofendida por eu comparar as pessoas com números, mas, para o próprio capitalismo, é exatamente isso que somos: estatísticas). Continuando o exemplo: o problema de todos juntos formarmos um grande computador, é que chega um determinado momento em que o sistema operacional ganha inteligência própria e cada um de nós, individualmente, tornamo-nos descartáveis para o todo. Não tem problema se um, dois, ou vinte mil algoritmos forem descartados em sete bilhões e meio. Juntos, o impacto é diferente, mas separados ou em pequenas proporções isso não oferece risco algum à máquina. Logo, nós, que individualmente éramos imprescindíveis para a criação do software, agora conhecemos o peso da ingratidão. O grande computador aprendeu a programar e a quantidade de algoritmos programados será sempre superior ao de algoritmos falhos. Porque é isso que as cabeças pensantes são para o sistema: uma falha.
Perceba que através dessa indelicada analogia eu coloco o capitalismo como um grandessíssimo vilão. Mas, para mim, uma organização economicosocial que faz com que uma única pessoa detenha o suficiente para tirar da miséria milhões de outras, essa organização é absurda. Uma organização que destrói o próprio planeta Terra é imperdoável.

E agora falemos sobre hipocrisia, o x da questão e o problema de nos tornarmos escolas.
O que me possibilita ser uma cabeça pensante que cogita e questiona o sistema é justamente porque fui privilegiada por ele desde que nasci. Logo, como eu disse no início do texto, ser grata ao universo por ter o que sempre tive, enquanto outras pessoas não têm nem o que comer é o que faz de mim uma puta de uma hipócrita. Porém, acalmem os ânimos queridos abacaxis, eu sou a acusação, mas eu também sou a defesa. Nada comprova que todos que são privilegiados pelo sistema desde que nasceram pensem como eu, ou que quem não foi discorde. Na verdade, quanto mais excessivamente privilegiado e quanto menos excessivamente privilegiado, mas ambas as partes tendem a discordar de mim, pela simples e única razão que a nem um dos dois interessa. Os muito ricos acreditam ser ricos por pensarem como ricos e que os pobres são pobres por pensarem como pobres. Já os muito pobres só queriam ser muito ricos para nunca mais serem humilhados na vida. Essas pessoas são subjetivamente humanas, dentro de uma visão criacionista. Porém, dentro da minha analogia, elas são objetivamente algoritmos perfeitos. O sistema necessita que existam ricos e pobres, pois é isso que o caracteriza. O dinheiro é o que caracteriza e qualifica o capitalismo. Percebam que esta é a primeira vez que eu uso a palavra “dinheiro”, ainda que tenha estado implícita durante todo o texto.
Pois bem, quanto mais pobres querendo ser ricos, mais marcas são vendidas, mais dívidas são feitas, famosos se tornam ainda mais famosos e mais capital é movimentado, fazendo com que os ricos fiquem ainda mais ricos, o planeta fique ainda mais ameaçado e os miseráveis continuem miseráveis. É isto.
Então eu te pergunto: pensar para quê?
Ok, vamos lá. Talvez o capitalismo não seja tão malvado assim e necessite que alguém interfira em suas ações para que a coisa toda desacelere e fique menos radical. É uma forma de se pensar. Outra maneira é acreditar que as mentes que tudo questionam e refletem realmente são apenas algoritmos prejudiciais. Mas então o que dizer dos filósofos gregos? E de como as mentes pensantes da época modificaram a estrutura social até chegarmos ao que é hoje? (Eu sei que prometi não falar de nem um sistema que fosse anterior a Revolução Industrial, tão pouco anterior a Cristo), mas a questão é: se modificar o sistema é possível talvez também seja imprescindível, afinal de contas até os melhores computadores necessitam de atualizações.
Não estou jogando por terra minha analogia, estou dizendo que até uma mudança é prevista na organização social e é dessa forma inevitável. Logo, as falhas também são admitidas pelo sistema e o grande computador já conta com elas. São prejudiciais por não funcionarem como as outras, mas são positivas por serem um indicativo de que o software necessita de uma nova versão.
Exemplo: se a economia continuar no ritmo em que está, em pouco tempo não haverá mundo suficiente para suprir a necessidade de todos e a consequência disso serão guerras e mortes. Isso é previsto e alertado pelas cabeças pensantes (algoritmos falhos) e implica na perda futura de bilhões de pessoas (algoritmos perfeitos), logo, isso acaba sendo essencial ao grande computador, que percebe ser fundamental diminuir o ritmo ou mudar as atitudes a partir de já.
Tudo faz sentido, pois tudo tem relação.

Sendo assim, não existe “acabar” com o sistema, pois tudo já foi previsto, já foi pensado. Explicar mais sobre isso acabaria por confundir a mim mesma. Tudo que posso defender é que transformar a situação do mundo leva tempo e necessita de todos nós. Estou consequentemente dizendo que tudo vai mudar naturalmente, com o passar das décadas, séculos e etc. porém, também quero dizer que nós somos capazes de decidir qual o nosso papel na sociedade do mundo. Se somos algoritmos perfeitos ou cabeças que refletem, questionam e alertam. Se você chegou até aqui, página três desse texto, muito provavelmente você pertence ao segundo grupo. Então eu vou continuar escrevendo até concluir o que eu ia dizer sobre hipocrisia, o x da questão e o problema de nos tornamos escolas.
Até agora falei de como eu acredito funcionar o sistema e qual papel desempenhamos nessa organização do mundo atual. Até agora me referi a humanidade de maneira metafórica e ironicamente objetiva. Agora, irei falar da condição humana, da relação sociedade indivíduo e de como isso complica as coisas.
Hipocrisia no senso comum, é tida como algo ruim, afinal de contas ninguém gosta de pessoas hipócritas, mas o que nos esquecemos é que também é algo muito natural. É difícil por demais fugir da hipocrisia, pois todos os seres humanos e apenas os seres humanos, são hipócritas. O que dá para fazer é apenas ser o mínimo hipócrita possível.
Isso se resume em dizer que defender com unhas e dentes uma causa social é tornar-se um ativista. E apenas isso. Você não é juiz por reconhecer a existência de um problema, tão pouco advogado. Você não é o médico que vai curar o mal do mundo ou o engenheiro que irá construir uma solução. Sabe por quê? Porque você ainda vive inserido no contexto. Você precisa se vestir, comer e dispor de serviços. Você tem necessidades e anseios e tudo que você sabe ou pensa saber, tudo que você quer e tudo que você acredita são frutos das suas relações, da sua vivência e das suas bagagens. Se você luta contra o capitalismo você é uma fraude. Porque você nasceu capitalista, cresceu capitalista, é e sempre vai ser capitalista. É a última vez que repito: o segredo está na etimologia.
“Capitalismo” meus abacaxis, é só uma palavra, que designa a estrutura da sociedade e consequentemente da nossa vida. Se você quer combater o capitalismo você deve substituir a palavra “combater” por “alterar” até que “capitalismo” altere para outro termo. No entanto, enquanto houver capital acredito eu essa modificação de nomenclatura ser improvável. Assim, a solução é usar as ferramentas que temos para modificar o mundo da forma que podemos. Se dinheiro é o que move o mundo, então justamente é o dinheiro que pode torna-lo mais justo. É aí que se torna utópico o anarquismo e o socialismo, pois tais sistemas consistem em uma mudança agressiva pautada em um combate ao capitalismo (a meu ver), enquanto que tudo pode se modificar internamente, no núcleo. A exemplo para reforçar meu raciocínio estão os feudos, a monarquia e o parlamentarismo. São sistemas que deram lugar a atual democracia representativa, que é a organização mais atuante no planeta hodierno. É uma forma de organização política que tem ligação intrínseca aos demais aspectos da sociedade, ou seja, ao aspecto econômico.
Com isso, o que quero dizer é que: não adianta gritar para os quatro mil cantos do planeta que você é revoltado com o sistema, é preciso fazer isso com estilo.
Há duas formas de ser um revoltado: sendo um ativista ou um espião. De ambas as formas você pode se tornar uma escola e acabar recrutando mais pessoas para a sua causa, porém, todavia, no entanto, um espião atua de forma mais particular, enquanto que um ativista deixa claro para todos qual é sua posição.
Mas o que é um espião?
Nesse momento gostaria de parabeniza-la (o) (perceba que ao colocar o “a” inicialmente deixo claro que sou ativista do movimento feminista) por ter chegado até aqui, acredite, é mais perturbador escrever por três horas seguidas do que ler por trinta minutos seguidos.

Um espião seria o relacionamento que você tem consigo próprio. Acreditar que o dinheiro não traz felicidade é uma típica bobagem dita por quem vive às custas de outra pessoa. Chega um momento na vida da maioria que é preciso assumir certas responsabilidades não tão felizes assim para que se continue sobrevivendo. Isso se resume em conquistar sua independência financeira. Então, o exemplo em questão é uma cabeça pensante incomodada com as desigualdades sociais, porém, que cresceu em uma situação de privilégio, mas não em condição de riqueza. Ao necessitar conquistar sua independência financeira, essa cabeça pensante irá chegar na seguinte questão: o iogurte que tomava quando criança é caro demais. As roupas que ela vê nas vitrines dos shoppings são caras demais. Não ter um carro próprio é ruim demais. Concluindo que viver com pouco dinheiro é uma merda. Porém, a mesma cabeça pensante se questiona: se para mim é tão ruim viver assim, como é para quem detém apenas um dólar por dia? Esse, meus abacaxis, é o X da questão. É quando a mente e o querer entram em conflito, é a isso que me refiro quando uso o termo “ser dividido” no início do texto.
Você querer uma estabilidade financeira, aceitar que possui acesso a estudos e oportunidades para um dia chegar neste patamar tão desejado, é confirmar o fato de que você é quem mantém o capitalismo funcionado. Você querer comprar seu carro, suas roupas e seu iogurte é natural e humano, porém também é fruto do contexto social em que nascemos. Logo, se formar para escrever e falar que o aquecimento global é prejudicial e que pessoas passando fome é injusto, é também concluir que você tem uma pontinha de culpa nisso. A sua bolsa veio de uma fábrica poluidora, o seu carro foi negociado por uma montadora que se alojou em uma área de reserva quilombola, tudo que você precisa para viver bem em algum momento acabou prejudicando outras pessoas. Por melhores que sejam suas intenções com a humanidade não dá para ser cem por cento não hipócrita.
Eu sei que é difícil aceitar isso. É duro demais para mim mesma escrever. A melhor solução em que cheguei foi o termo “espiã”. Pois um espião é aquele que se infiltra em uma organização para descobrir formas de derrota-la. Nós, enquanto espiões do sistema, podemos viver com ele, porém não nos limitar a isso, sempre podemos pensar em mecanismos que tornem as coisas mais justas e menos cruéis para todos. Porque isso também é humano, isso também são valores. Humano no sentido de que precisamos proteger aos nossos semelhantes para que nossa espécie continue viva. Essa necessidade biológica foi convertida em valores sociais, tais como, compaixão e altruísmo. E é melhor que seja assim. Natural ou não, tais noções fazem com que nos sintamos humanos, o que libera hormônios da felicidade. No fim das contas, não necessitamos estar nas melhores estatísticas para que a dopamina seja liberada. Só precisamos nos sentir humanos, nos sentir conectados com algo maior, maior que o próprio sistema, que assim como a selva e a savana dos animais, é cruel e injusto. Amor, laços, conexão com o universo que é infinitamente superior... essa é a espionagem mais perfeita de todas. Pois é o que muda quem somos, muda nossos semelhantes, faz de nós escolas, ativistas, espiões, altruístas, artistas, poetas e filósofos. Faz com que todas as telas em um momento travem e que em nossos olhos estejam esculpidos a certeza de que para sempre seremos algo muito mais importante que algoritmos. A cada um de nós cabe a dor e a alegria de ser uma pessoa.










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